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Istoé Dinheiro: "Contra a crise, a força dos investimentos"

Quem conversa com o executivo baiano Marcello Spinelli, presidente da empresa Valor Logística Integrada, mais conhecida apenas como VLI, dificilmente reconhece, em um primeiro palpite, a origem de seu sotaque. Fala devagar como um autêntico soteropolitano, mas arrasta um pouco para o “mineirês”, às vezes puxa o “erre” como um paulista do interior ou estica o “esse”, como fazem os capixabas e os cariocas. Logo se entende de onde vêm tantos acentos. Spinelli, que atualmente mora na capital paulista, há mais de uma década passa os cinco dias úteis da semana viajando pelo País com sua equipe de executivos, em reuniões e visitas às principais unidades da companhia em Minas Gerais, Espírito Santo, Maranhão, Tocantins, Pará e São Paulo.

Ele comanda um plano de investimentos de R$ 9 bilhões até 2017, dos quais R$ 4 bilhões estão sendo gastos para a modernização de um corredor ferroviário que liga o interior de Goiás ao Porto de Santos, em paralelo à construção de duas oficinas de locomotivas e dois megaterminais integradores de carga, em Uberaba, no triângulo mineiro, e Guará, município paulista vizinho a Ribeirão Preto. Há ainda um terminal portuário em Santos, o Tiplam, sendo ampliado e modernizado pelos próximos dois anos.

“Com o projeto totalmente concluído, poderemos tirar mais de 1,5 mil caminhões das estradas por dia e reduzir em mais de 80% a emissão de poluentes”, disse Spinelli à DINHEIRO, sem esconder a empolgação com a maior obra ferroviária em implantação no País, batizada de Corredor Centro-Sudeste. “Teremos condições também de reduzir para cerca de seis horas um carregamento que demorava mais de 30 anteriormente. A infraestrutura brasileira dará um grande salto e ganhará eficiência.” A euforia do executivo – que atende a clientes como Usiminas, ArcelorMittal, Gerdau, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus – cresce à medida que se aproxima a data de inauguração oficial da primeira etapa do projeto.

Daqui a menos de um mês, a VLI, que até o ano passado era o braço logístico 100% controlado pela Vale, vai inaugurar as operações do terminal de carga de açúcar em Guará, um moderno complexo de carregamento em uma área de 89 mil m². “A VLI é a maior empresa que os brasileiros não conhecem”, brincou Spinelli, referindo-se aos números da companhia. Com mais de 6,5 mil funcionários e faturamento de R$ 3,7 bilhões em 2014, a VLI pertence, desde o ano passado, a quatro grandes sócios: a Vale, que manteve participação de 37,6% do capital, o fundo canadense Brookfield (26,5%), a japonesa Mitsui (20%) e o FGTS, gerido pela Caixa, com fatia de 15,9%.

O Corredor Centro-Sudeste não chama atenção apenas pelas cifras envolvidas, mas pela ousadia. O atual momento econômico tem desencorajado a grande maioria das empresas a promover investimento dessa envergadura. Assustadas com o petrolão e a crise política do governo da presidente Dilma Rousseff, elas não enxergam a beleza do mercado brasileiro, ofuscada pelas manchas dos escândalos. Pelos cálculos do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da FGV, que ouviu 669 empresas entre janeiro e fevereiro deste ano, apenas 27% das empresas estão acelerando seus negócios.

“Adiar investimentos não significa crise ou falta de dinheiro em caixa, mas a avaliação de que o momento exige cautela”, avalia a economista da FGV, Paula Gandra. “Assim que a economia der sinais de melhora, os investimentos represados voltarão à rotina das empresas.” Muitos empresários, no entanto, não parecem estar dispostos a esperar a economia melhorar e a lama do petrolão se dissipar para abrir o cofre. Ao contrário, estão remando contra a maré de pessimismo e colocando seus investimentos em operação para conquistar sua fatia dos 200 milhões de consumidores.

É o caso da rede varejista Polishop, do empresário paulista João Appolinário, com 212 lojas espalhadas por todos os Estados do País – exceto o Acre. Até o final deste ano, a empresa irá inaugurar 50 lojas próprias, o equivalente a uma por semana, incluindo uma na capital acreana, Rio Branco. Em 2014, foram investidos R$ 38 milhões na abertura de 34 unidades. O plano, agora, é acelerar o passo e injetar R$ 45 milhões na ampliação dos pontos de venda, especialmente em shoppings, além de R$ 5,5 milhões na modernização da produtora responsável pela famosa programação 24 horas da Polishop, com demonstração dos mais de 600 produtos do portifólio.

“Não existe crise. Só há crise para quem se preocupa apenas em vender, vender e vender, oferecendo descontos para turbinar os gráficos da empresa”, afirma Appolinário. “Antes de vender, oferecemos uma solução para as pessoas. Esse é o segredo”, acrescenta o empresário. De fato, os carros-chefes da Polishop, conhecida pelos equipamentos de ginástica, utensílios de cozinha e de beleza pessoal, são produtos de uso doméstico que conquistam mais pelas funções do que pelo preço. A fritadeira Philips Air Fryer, por exemplo, a líder de vendas que não utiliza óleo no processo de fritura, sai por cerca de R$ 1,2 mil.

Um bom termômetro da atual temperatura dos investimentos no Brasil é a alemã DHL Suply Chain, maior empresa de logística do mundo. “Os investimentos não estão parados, eles mudaram de perfil”, afirma José Nava, presidente da companhia na América Latina. “O foco agora é investir em eficiência, não em capacidade.” A empresa sob seu comando é responsável pela operação logística de diversos grupos multinacionais, como as americanas Unilever e Nike e praticamente todas as montadoras de automóveis que atuam no País. Segundo Nava, há sim uma suspensão dos investimentos de curto prazo, voltados para atender crescimentos de demandas pontuais, como os proporcionados pelas datas comemorativas ao longo do ano, momentos de grande movimentação no varejo.

Mas os planos de longo prazo, mesmo envolvendo altas somas de investimentos, como a construção de fábricas e a ampliação de armazéns, seguem seu curso normal. Um exemplo disso é o fato de que a DHL já tem mapeado, em diversas regiões do Brasil, possíveis investidores interessados na compra de terrenos e na construção de armazéns. Trata-se de uma ofensiva crucial para a empresa, que observou seu centro logístico de Louveira, no interior de São Paulo, esgotar sua capacidade recentemente. Nessa corrida contra a crise há quem sonhe, ainda, em conquistar outros mercados.

Maior fabricante de genéricos do País, em volume de produção, a paranaense Prati-Donaduzzi está concluindo as obras de uma nova fábrica, localizada no mesmo terreno de sua atual unidade, na cidade de Toledo, no Oeste do Estado. O laboratório terá toda a tecnologia para atender os parâmetros tanto da Anvisa, órgão que fiscaliza a produção e a comercialização de medicamentos no Brasil, quanto do FDA, que realiza o mesmo trabalho nos Estados Unidos. “Há mercado para nós nos Estados Unidos”, afirma Luiz Donaduzzi, presidente da companhia. “A ideia é exportar em um nível bem elevado.” Com a nova fábrica, que recebeu investimentos de R$ 100 milhões, a Prati-Donaduzzi vai aumentar em 6 bilhões de pílulas a sua capacidade de produção, que atualmente está em 11 bilhões de comprimidos.

No ano passado, o faturamento da empresa ficou na casa dos R$ 700 milhões. Este ano, ele deve alcançar R$ 1 bilhão. “Fazemos investimentos de acordo com nossa necessidade, não de acordo com o humor do mercado financeiro”, diz Donaduzzi. Enquanto alguns empresários se preocupam com as consequências da crise política e do escândalo de corrupção na Petrobras, outros preferem pensar no longo prazo e tratar o atual momento econômico brasileiro apenas como uma fase. É o caso da Coca-Cola, que tem previstos investimentos de R$ 2,7 bilhões.

“A gente não é bobo”, afirmou Xiemar Zaraúza, presidente da empresa no Brasil, na semana passada, ao jornal Valor Econômico. “Quantas empresas estão investindo como nós? Pouquíssimas. Quando fazemos investimentos, e os outros não, ganhamos no médio e no longo prazo.” Esse pensamento, na opinião de José Nava, da DHL, é o que diferencia aqueles que sucumbem diante da crise, daqueles que se fortalecem após períodos conturbados. “Quando está tudo bem, você se permite certas ineficiências”, diz. “Na crise, isso não é possível. O Brasil sairá fortalecido desse processo.”

MANIFESTAÇÕES O exemplo da operadora de tevê por assinatura Sky é emblemático. Dez dias antes das manifestações nas ruas do Brasil contra a presidente Dilma Rousseff, ocorridas em 15 de março, a empresa, que possui 6 milhões de assinantes em 4 mil municípios, divulgou um dos seus maiores investimentos no Brasil nos últimos anos. Foram gastos neste ano R$ 1,3 bilhão para a construção de seu novo Centro de Transmissão (CT), na cidade paulista de Jaguariúna. Em um período de crise, até a filha do presidente da SKY, Luiz Eduardo Baptista, estranhou o montante do negócio.

“Minha filha perguntou se não era errado colocar tanto dinheiro agora”, diz Baptista, conhecido internamente como “Bap”. “Não tomamos decisões olhando a foto atual, mas sim projetando o filme do futuro do País.” O novo CT será três vezes maior que o atual, localizado em Tamboré, na região metropolitana de São Paulo. Ele também atenderá outros países da América do Sul. De acordo com Baptista, o projeto não é o único investimento da subsidiária brasileira da SKY em 2015. “Anualmente, investimos cerca de R$ 2 bilhões em áreas como tecnologia, inovação e marketing”, afirma o presidente da Sky, que não deixa nem a concorrência de serviços de locação online, como o site Netflix, tirar seu otimismo com o crescimento da empresa.

“Meu único medo é que as pessoas fiquem com receio de tirar o dinheiro do bolso e deixem de assinar meus pacotes de programação”, disse Baptista, sorrindo. Mesmo empresas que atuam em setores da economia em dificuldades, como o automobilístico e o de construção civil, estão enxergando além dos problemas momentâneos e investindo. A americana PPG, dona da marca de tintas Renner no Brasil, acaba de inaugurar uma fábrica dedicada à produção de resinas em Gravataí, no Rio Grande do Sul. O investimento na unidade foi de R$ 100 milhões, o que deve representar um crescimento de 10% da receita no País.

Além disso, a empresa já separou R$ 200 milhões para novos aportes na subsidiária brasileira até 2017. Isso acontece bem no momento em que seus principais mercados no Brasil, o de tintas para o setor automotivo e o de produtos de linha branca, estão em queda. De acordo com a Fenabrave, a venda de automóveis recuou 22,5% nos dois primeiros meses deste ano. Já os fabricantes de fogões, geladeiras e lavadoras de roupa tiveram os piores resultados desde 2004. “O Brasil não é para amadores”, afirma o americano Michael McGarry, CEO da PPG Industries, cujo faturamento global, no ano passado, foi de US$ 16 bilhões.

“Mas crises como essa são passageiras e temos ótimas oportunidades para crescer.” A MSD Saúde Animal, braço na área veterinária da americana Merck, para não sucumbir à crise, decidiu investir e diversificar. O lançamento de um novo remédio, o Bravecto, para pulgas e carrapatos, é a grande aposta da empresa. A expectativa da MSD é sair da fraca oitava posição no mercado pet, que já movimenta R$ 16,4 bilhões no Brasil, para ficar entre as três primeiras. Os investimentos, neste ano, serão de R$ 50 milhões. “Não tem crise para nós”, diz Edival Santos, presidente da subsidiária brasileira.

É neste momento conturbado, inclusive, que o Porto de Santos, o maior da América Latina, recebeu, no mês passado, o maior navio já visto na costa brasileira: o cargueiro Tigris, da transportadora francesa CMA CGM. A embarcação tem capacidade de 10,6 mil TEUs, medida utilizada pelo setor logístico que corresponde ao conteúdo de um contêiner. Isso significa que o Tigris é capaz de transportar 210 mil toneladas de produtos. O terminal responsável por aportar o navio foi o do Grupo Libra, dono de um faturamento de R$ 1,3 bilhão.

“O Tigris representa a força que o Brasil tem no mercado e é resultado dos nossos investimentos”, diz Marcelo Araújo, presidente do Grupo Libra. Para Araújo, o Tigris é só o começo. A companhia não quer pensar em fechar a carteira. Nos próximos 12 meses, a Libra desembolsará R$ 1 bilhão, juntamente com a Multiterminais, para a expansão da área portuária do Rio de Janeiro. As obras incluem ampliação dos cais, construção de novos prédios e três novos armazéns. O mar pode até não estar para peixes. Mas o bom pescador é aquele que sabe se antecipar às oscilações da maré.